
Quarta feira fui à Missa, ação que confesso
não fazer com muita constância até, porque eu estudo a Doutrina Espírita. E, entre, vários
ensinamentos, que tive a oportunidade de absorver durante a Santa Missa, esse
me deixou mais pensativa, o padre disse sentir falta de ver os filhos pedirem a
benção aos pais, chegou a citar que presenciou filhos saindo de suas casas
dizendo apenas: “Tchau, vei” ou “Velha, deixa a chave do carro que eu vou usar
depois”.Essas palavras me tocaram profundamente. Lembro-me de quando era
criança e viajava para o Piauí em
período de férias para ficar na casa da minha avó, o que não era uma idéia muito
original, uma vez que todos os outros tios e tias faziam o mesmo com seus
filhos e filhas. Mas, a multidão de gente não era o problema, pelo contrário,
era uma maravilha, tínhamos (eu e meu irmão) uma gama de gente para brincar. O
problema mesmo era na hora de acordar e dormir. Quando acordávamos estavam
todos ao redor da mesa e éramos obrigados a pedir a benção um a um, e não só
para aos familiares, mas para todo ser acima de uma idade que não conseguíamos identificar
como nova demais para tal feita. Pedi tantas bênçãos aos meus primos, que
passaram a me obrigar a chamá-los de tios e eu a acreditar realmente que eram
até pouco tempo atrás. Não quero dizer que era ruim receber tantas bênçãos assim
durante trinta ou mais dias seguidos, mas aquele dar a mão, beijar mão, deixar
que beijem a minha mão e para os mais queridos beija testa e grande abraço,
cansava um pouco. E, durante a noite, todos sentados na calçada da minha linda
e saudosa avó, o ritual era o mesmo e dessa vez as solicitações de bênçãos se
estendiam para vizinhos e afins E, confesso que até quebrava um pouco o encanto
de estar viajando para a casa da minha vovó. O tempo se passou, os anjos
levaram minha avó pelas mãos e aqui em casa todo mundo cresceu. Eu fui uma
adolescente revoltadinha, e com algumas reclamações, questionamentos, má
vontade, fugas e etc, consegui parar de pedir a “bença” tanto para o meu pai,
quanto para minha mãe, preservando para minhas tias – de verdade - que não vejo todos os dias, inclusive as que
não moram no Piauí. Acontece, que quarta feira eu fui à Missa, e ao contrário
do comentário de uma amiga, que afirmou só poder se tratar de uma missa de
sétimo dia ou uma paga de promessa, lá estava eu de coração aberto,
participando efetivamente da celebração. Cheguei em casa, então, e antes de
dormir pedi a benção para os meus pais. Não tenho como descrever a expressão de
espanto dos dois. Minha mãe se recuperou rapidamente e pediu com aquela fé que
só uma mãe pode ter para que Deus me abençoasse e trocamos beijos nas mãos e
testas. Mas, chegando a vez do meu pai, tudo foi bem mais engraçado. O meu pai
sempre acha que eu tenho um objetivo escuso para cada atitude que eu faço. E,
ele tem os seus motivos. Então, de quarta para cá, todas as manhãs e noites tem
sido um roteiro para uma comédia. Não é que ele não me abençoe, porque isso ele
sempre fez mesmo sem que eu estabelecesse todo o ritual, mas meu pai, um homem
muito sábio, acredita fielmente que um filho aceita a benção e abençoa um pai,
quando segue todos os preceitos morais que esse pretendeu ensinar a vida
inteira. Estou tentando fazer do jeito dele, mas preciso do meu momento
perdigão, vou abrir meu coração, pedir a benção é bem mais fácil. E, não quero
dizer que a faço por fazer, muito pelo contrário: quero que os meus pais tenham
a certeza que fizeram um bom trabalho me direcionando na vida, eu que fiz
questão de desobedecer “ouvir o lobo” e “seguir o caminho mais curto”, creio que chegou a hora de “levar os doces”
exatamente como tem que ser feito, pelo caminho certo. O bom da vida é que a
gente amadurece. Dá-me a tua benção, meu pai! e dá-me a tua benção, minha mãe.