Fiquei pensando sobre a Copa
no Brasil, alias não sei quem não se encontra em tal situação ou por
consciência social ou por vontade de gritar gol. Entre todos os meus
pensamentos me demorei na reflexão sobre as pessoas conformadas que postam em
suas redes sociais frases do tipo: “o problema do Brasil não é a copa”; “Se não
tivesse a Copa no Brasil os hospitais, escolas, estradas estariam do mesmo
jeito”; ou a “roubalheira arrumaria outra desculpa”. A priori fiquei muito indignada com essas pessoas, afinal se sediar
a Copa não é o problema, também não era a solução e se as coisas permanecem do
mesmo jeito temos que mudar a nossa atitude diante dos problemas para
justificar esperar resultados diferentes.
Revoltada, então, tirei boa
parte dessas conformadas pessoas do meu feed
de notícias e bloqueei outras tantas das minhas redes. Mas, depois pensei
melhor, vivo em processo de auto avaliação constante, e conclui que estou sendo
hipócrita. Em copas anteriores, a vida no Brasil era a mesma bosta, não tinha e
não tenho retorno dos meus impostos, não tenho segurança e da pouca que tenho
recebo orientações absurdas como a de ser gentil com assalatantes, porque a
minha reação natural de proteger o meu bem pago em “n” vezes com o meu trabalho
pode não ser bem interpretada pelo bandido, que pode, por isso, resolver me
matar. Aliás, eu também faço parte de um sistema que não funciona. Apesar de
precisar registrar que faço o que é possível para que o quadro mude e acompanhe
o comprometido trabalho de excelentes profissionais, ainda tenho alunos que em
detrimento dos 07, 08, 10 anos que frequentam a escola, são analfabetos
funcionais. E, não tem nada mais triste do que uma criança que não interpreta o
que codifica e que por vezes codifica mal...
Mas, continuemos pintando o
horrendo cenário das nossas patéticas vidas hipócritas. Ninguém pode estacionar
o carro sem ser coagido a pagar ao flanelinha para não ter o carro riscado,
arrombado ou sei lá o quê. Flanelinha, aliás, que o governo registrou,
admitindo que a segurança oferecida à população é ineficiente. Na verdade,
chegar a um estacionamento já é um feito, haja visto que as estradas estão um
caos tanto no que diz respeito a estrutura das vias quanto ao fluxo. Não
podemos contar com o transporte público. Pago um plano de saúde exorbitante
para esperar 3 meses por uma consulta médica, que tem hora marcada como mera
formalidade, porque a verdade é que foi instituído uma ordem de chegada non cense, que nos faz esperar cinco
horas em bancos nada confortáveis das clínicas e hospitais.
E, mesmo com tudo isso, eu
não ligo. E, se ligo demonstro isso muito mal. Porque vivo de confraternização em
confraternização com amigos e parentes, em suas casas, nos bares e
restaurantes. Vou à festas e sorrio. Sei que o discurso conformado vai gritar: Mas
a nossa vida não pode parar! E, não pode mesmo, mas há de se fazer alguma coisa
que sei que não faço. Então, o que me incomoda na hipocrisia alheia que comprou
ingressos e vai torcer para a Seleção?
Na copa anterior, por
exemplo, bebi em todos os jogos, fizemos churrascos que entraram noites e
madrugadas e o cenário era exatamente o mesmo: a corrupção comia solta, a
inflação era camuflada/negada e lá estava eu bebendo, comendo e gritando
Gooool. Então, o que mudou agora que a bagaceira é aqui?
Essa manhã eu encontrei a resposta
ao ler o status de um amigo de faceboock: “temos vergonha, quando a visita
percebe a sujeira que está embaixo do tapete”. A mudança foi essa, estou com
vergonha da sujeira que venho fingindo não ter parte ao seguir a minha vida
como se tudo estivesse de acordo, estivesse bom.
Talvez esse sentimento é a
grosso modo análogo ao que fazemos quando morre alguém querido , passamos a
fingir que a vida perdeu a cor, mas isso passa, porque a “vida continua”, aliás
muita gente entra em depressão pela contradição presente nisso, querem sofrer
eternamente, mas não é possível, isso deve ser um mecanismo biológico de sobrevivência.
O mesmo ocorre quando o morto não é nosso, mas de um amigo, chegamos a limitar
a nossa felicidade na frente dele, uma forma de respeito a dor que sente, não o
chamamos para os bares, festas, sem que isso signifique que nós não as façamos
ou as frequente. No fundo o amigo sabe, mas a gente segue, porque é isso que
fazemos: Seguimos com essa vida sem proposito, indignados com situações que
nada fazemos para mudar.
Nessa hora, tenho inveja dos
que tem fé, porque acreditar numa recompensa para se viver toda essa loucura, ameniza
bastante o sofrimento, apesar de ser contraditório e também hipócrita. Afinal
não há religião que não fale de amor e compaixão como condição para essa
recompensa e, seguir a vida com nossas rotinas diárias insignificantes “agradecidos”
pelo o que temos, sem utilizar disso para melhorar nem que seja minimamente o
sofrimento de alguém, é negar em tudo o discurso religioso.
No fim, minha indignação
também é incoerente, e acho melhor que assim seja, porque a incoerência pressupõe
movimento, que um dia espero nos leve a um lugar mais bonito, o que não é possível
almejar com a estagnação conformada dos que votam no que “rouba, mas faz” e
vivem a vida com meias indignações camufladas em hipocrisias instituídas.
