Eu
nunca tenho premunições, mas dessa vez era nítido. Eu tive uma premunição. Eu
não deveria ter saído de casa. Mas saí, e já lá tive a chance de entregar o que
fui para levar e ter ido embora, antes de você chegar, mas eu nunca dou ouvido
ao que indicam as minhas sensações. Possivelmente não as ouço porque qualquer idéia
de dominação me causa horror. Acontece que há domínios necessários, e
sentimentos quase sempre não se enganam. Eu fui, teimei, fiquei e você chegou.
Eu não estava arrumada, nem me julgava preparada para te ver. E, você estava
com um esquisito novo visual, atribuindo um ar cômico a sua imagem. Eu gostaria
de ter ficado incomodada, ter lamentado o nosso erro ou ao menos considerá-lo
assim. Queria que como cena de filme toda a situação que outrora nos colocamos
passasse pela minha cabeça com aquela borda esfumaçada, causando-me um aperto
enlouquecedor no peito, mas isso não aconteceu. E, eu fiquei constrangida por
não me constranger. Agimos, então, normalmente, você até me deu um tímido abraço
e de longe me questionou o olhar fixado em você. Questionou-me com aquele olhar
de quem já tem a resposta, sem imaginar que tudo o que eu queria saber era o que
eu deveria realmente estar pensando ou sentindo mergulhada naquela sensação
chata de nada sentir. Eu quis sorrir, tal como faço sempre que passo em frente
aos locais onde estivemos naquele controverso dia, mas fiquei ali sem sentir coisa alguma. Não
sentir nada é um jeito estranho das coisas me incomodarem, porque passo a me
mobilizar para sentir qualquer coisa e quase sempre qualquer coisa não serve.
Aí, contrariando toda a sintonia, que já provamos não ter, eu te quis de novo e
passei a te seguir com os olhos, experimentando um sentimento leve, que apesar
de não doer, incomoda. Desejei estar te incomodando também, mas desse incomodo
estranho que nos deixa assim, sem saber o que esperar da situação, do outro. Na verdade, não passamos de dois estranhos.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
À espera
Queria
eu poder fazer da tua dor a minha
e perceber
as dimensões profundas dessa tristeza.
Queria
eu poder estancar a fonte que a alimenta
e te
fazer viver sem dor.
Mas,
o meu querer não basta,
e toda
vez que a dor te invade,
me
esmaga junto implacável
e
percebo o tamanho da minha impotência.
E,
dali do lugar onde estou
pequena
e tremula como bicho acuado,
sei que
estar ao seu lado é o que quero,
mas espero
calada a vitória da essência.
Sermos uma só nota
A
dor que sentes não é mais só sua,
pois
a sua doçura misturou tua dor na minha.
Então,
a dor aumentou? Perguntarás
E,
responderei com a pouca certeza que me resta.
A dor
que te sangra a alma,
também
me escorre no rosto.
Agora,
febril perguntarás:
E,
como vê-la em pranto abafará a dor que sinto?
E,
eu sem poder algum de te estancar a dor
solto
um clichê redondo, floreado com minha verdade.
Meu
pranto nada abafa,
mas te
proponho sermos uma só nota,
diminuído
o risco de desafinarmos na vida.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Sala de Espera de um Pronto Socorro
Estou tentando evitar ser cobrada pela Luciane.
Então, ando produzindo mesmo quando não há o menor clima. Mas, claro que não
saio publicando tudo. O que é um sinal de que há em mim algum respeito próprio.
Mas, certo dia, passei do limite. Fiquei esperando ser atendida em um hospital
com o caderno aberto e uma caneta na mão como se esperasse que um texto me
viesse tal qual uma psicografia. Mas, não há como ter inspiração sentido dor e
olhando caras sofridas de quem também espera ver sua enfermidade ou a de alguém
querida ser curada. Quando as caras não são sofridas os assuntos fazem às
vezes. É cada conversa desanimadora que ou você começa a agradecer pela
simplicidade do que te levou ao hospital ou começa a pedir perdão pelos pecados
cometidos durante toda a vida, uma vez que nos achamos diante da certeza
eminente comprovada pela amostragem das conversas, de que se morre do que te
aflige. Esse negócio de médico e louco todo mundo ter um pouco faz muito
sentido na sala de espera de um Pronto Socorro. E, a gente espera tanto para
ser atendida que fica com vontade de desistir do médico e tomar o remédio
indicado pela pessoa ao lado que jura ter tido ou algum parente ou amigo o
mesmo problema de saúde que o seu em outra ocasião e que aquele remédio é
“batata”, o que não deve ser bom, porque batata só engorda. E, aí quando
finalmente escutamos o nosso nome vindo da sala de atendimento, nos deparamos
com uma face tão contrariada quanto o Dr. House, quando é obrigado pela Dr.
Cuddy à atender na emergência. Na verdade, todos os médios devem ter uma Dr.
Cuddy os obrigando, pois isso explicaria tanta má vontade. O problema é que
quando você é o alvo do mau humor housiano a comicidade se esvai. Outro grande
e maior problema é que em termos de competência, nossos médicos, ao menos no
Pronto Socorro, deixam muito a desejar. Mas, muito mesmo...
sábado, 16 de junho de 2012
Dá-me tua benção...
Quarta feira fui à Missa, ação que confesso
não fazer com muita constância até, porque eu estudo a Doutrina Espírita. E, entre, vários
ensinamentos, que tive a oportunidade de absorver durante a Santa Missa, esse
me deixou mais pensativa, o padre disse sentir falta de ver os filhos pedirem a
benção aos pais, chegou a citar que presenciou filhos saindo de suas casas
dizendo apenas: “Tchau, vei” ou “Velha, deixa a chave do carro que eu vou usar
depois”.Essas palavras me tocaram profundamente. Lembro-me de quando era
criança e viajava para o Piauí em
período de férias para ficar na casa da minha avó, o que não era uma idéia muito
original, uma vez que todos os outros tios e tias faziam o mesmo com seus
filhos e filhas. Mas, a multidão de gente não era o problema, pelo contrário,
era uma maravilha, tínhamos (eu e meu irmão) uma gama de gente para brincar. O
problema mesmo era na hora de acordar e dormir. Quando acordávamos estavam
todos ao redor da mesa e éramos obrigados a pedir a benção um a um, e não só
para aos familiares, mas para todo ser acima de uma idade que não conseguíamos identificar
como nova demais para tal feita. Pedi tantas bênçãos aos meus primos, que
passaram a me obrigar a chamá-los de tios e eu a acreditar realmente que eram
até pouco tempo atrás. Não quero dizer que era ruim receber tantas bênçãos assim
durante trinta ou mais dias seguidos, mas aquele dar a mão, beijar mão, deixar
que beijem a minha mão e para os mais queridos beija testa e grande abraço,
cansava um pouco. E, durante a noite, todos sentados na calçada da minha linda
e saudosa avó, o ritual era o mesmo e dessa vez as solicitações de bênçãos se
estendiam para vizinhos e afins E, confesso que até quebrava um pouco o encanto
de estar viajando para a casa da minha vovó. O tempo se passou, os anjos
levaram minha avó pelas mãos e aqui em casa todo mundo cresceu. Eu fui uma
adolescente revoltadinha, e com algumas reclamações, questionamentos, má
vontade, fugas e etc, consegui parar de pedir a “bença” tanto para o meu pai,
quanto para minha mãe, preservando para minhas tias – de verdade - que não vejo todos os dias, inclusive as que
não moram no Piauí. Acontece, que quarta feira eu fui à Missa, e ao contrário
do comentário de uma amiga, que afirmou só poder se tratar de uma missa de
sétimo dia ou uma paga de promessa, lá estava eu de coração aberto,
participando efetivamente da celebração. Cheguei em casa, então, e antes de
dormir pedi a benção para os meus pais. Não tenho como descrever a expressão de
espanto dos dois. Minha mãe se recuperou rapidamente e pediu com aquela fé que
só uma mãe pode ter para que Deus me abençoasse e trocamos beijos nas mãos e
testas. Mas, chegando a vez do meu pai, tudo foi bem mais engraçado. O meu pai
sempre acha que eu tenho um objetivo escuso para cada atitude que eu faço. E,
ele tem os seus motivos. Então, de quarta para cá, todas as manhãs e noites tem
sido um roteiro para uma comédia. Não é que ele não me abençoe, porque isso ele
sempre fez mesmo sem que eu estabelecesse todo o ritual, mas meu pai, um homem
muito sábio, acredita fielmente que um filho aceita a benção e abençoa um pai,
quando segue todos os preceitos morais que esse pretendeu ensinar a vida
inteira. Estou tentando fazer do jeito dele, mas preciso do meu momento
perdigão, vou abrir meu coração, pedir a benção é bem mais fácil. E, não quero
dizer que a faço por fazer, muito pelo contrário: quero que os meus pais tenham
a certeza que fizeram um bom trabalho me direcionando na vida, eu que fiz
questão de desobedecer “ouvir o lobo” e “seguir o caminho mais curto”, creio que chegou a hora de “levar os doces”
exatamente como tem que ser feito, pelo caminho certo. O bom da vida é que a
gente amadurece. Dá-me a tua benção, meu pai! e dá-me a tua benção, minha mãe.
sábado, 2 de junho de 2012
Na Natureza Selvagem
Mudando um pouco o foco das minhas últimas publicações e voltando um pouco ao passado, porque já faz um tempo que tenho esse ritual estranho de ler o livro Na natureza selvagem. Achei interessante compartilhar com vocês como foi que esse livro chegou na minha vida. Alguém aí já reparou que cada livro chega de um jeitinho especial? O fato mesmo é que tudo começou com o filme homônimo ao que tenho mania de reler. Eu acho um saco assistir a um filme e um babaca, sim porque é sempre um babaca, vir com esse clichê que "o livro é melhor". Ora, claro que é. São suas impressões, o sentimento que você configurou no momento em que lia o livro é totalmente seu, desse modo as significações que o livro lhe proporciona lhe são muito próprias. Um filme é a releitura do roteirista, a leitura do diretor e a emoção dos autores e da equipe de edição. Não dá para comparar. Podemos dizer que a releitura e emoção foi aquem da que tivemos, mas isso é questão de opinião e discutir opinião é a maior perca de tempo que existe. Eu gosto de verde, e você gostar de azul e ficar horas falando sobre o azul não vai me fazer ver o verde diferente. Então, é perca de tempo. Mas, não é sobre isso que eu quero falar. Quero falar que foi tudo meio estranho com relação a esse filme. Eu estava naquele estágio de muito mais sono do que vontade de ver televisão, quando esse filme começou. Acontece que o sono ganhou mais vezes do que eu gostaria que tivesse ganhado. E, na minha cabeça ficaram perguntas que eu não sabia como responder. Bolei um monte de possíveis roteiros que não me satisfaziam. Eu queria o real. Passei a procurar esse filme, por todos os lugares. Mas não tinha a menor idéia nem do nome do filme. Até que um dia, numa locadora, contando os pedaços que o sono tinha me deixado ver, um rapaz até conhecido meu, me deu uma luz: "Coloca isso que você está falando no google, se ele não souber, ninguém mais saberá". Me considerei o ser mais estúpido do planeta, porque essa hipótese nem havia me passado pela cabeça. E, era a melhor opção. O google, então, me remeteu ao livro que encomendei pela livraria Leitura e passei a ler no dia seguinte, mesmo dia que o terminei. Por ser baseado em fatos reais e por acontecer coisas que eu estaria sujeita que acontecessem comigo se eu fosse menos covarde, eu o li com muita rapidez. Agora quero ver o filme por completo, mas ando sem coragem, tenho medo da decepção e ficar com o mesmo clichê que condeno. Sempre que tenho vontade de ver o filme, leio o livro de novo. Eu recomendo, aliais como faço com todos os livros que leio, menos A Cabana, que realmente é realmente uma leitura vulgar.
P.S: Visite a página do livro no face: https://www.facebook.com/NaAventuraSelvagem
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