Eu adquiri um hábito feio de
reclamar do meu destino pouco feliz, assim longe de você. E, para não cansar
ninguém, agora faço essas reclamações para mim mesma, pensando ou mesmo falando
em voz alta e isso é muito louco. Quando não estou nesse processo quase ilusório de ser para mim a
melhor companhia que alguém poderia querer, desde que esse alguém seja eu,
estou sentindo a falta que você me provocou. E, não conjugo esse verbo no
passado, porque você não faz mais parte da minha vida, porque isso eu não sei
como se faz. Você é, agora, a parte
eleita como a mais legal de todas, talvez por não me pertencer, principalmente,
quando eu percebo que nossos planos permanecem nessa dimensão que a gente nunca
sabe onde fica, para onde vão todos os sonhos que não soubemos concretizar e
que, por isso mesmo viram um fantasma inconveniente com o costume de aparecer vez ou outra para nos cobrar . Qualquer
ausência sua me causa falta, me causa dor. Uma ida à geladeira para nos buscar uma
cerveja me provoca uma sensação estranha, como se eu acabasse de perder para
sempre algo que apesar de desejar muito nunca possuí. Você nunca aprendeu a se
fazer presente nas suas ausências a não ser que seja provocando em mim sua falta.
Vira e mexe e eu acredito nas continuidades, mas ser contínuo nunca foi o nosso
forte, não no que diz respeito a sentir, porque isso nem querendo a gente muda,
mas no agir. Sempre fomos a incontinuidade incoerente, que atribui ao que somos
uma não padronização que nunca sabemos lidar quando distantes da certeza que
nossas presenças nos proporcionam, quando estamos mergulhados um no mundo do
outro. Mas, quando estamos no mundo dos normais, dos comuns, acreditamos que
nossa estranheza não é contestável até que o primeiro idiota nos dirija
perguntas que fatalmente nos levam a definições que não nos cabem. Somos
exatamente o que não sabemos conceituar e isso é o melhor de nós dois. Somos
essa procura incessante por respostas que não queremos ter, porque simplesmente
não mudam nada, não alteram o que sentimos e isso é o melhor dos sentimentos,
porque a eles não se encerram definições. E, então troco meu hábito de reclamar pelo de
sentir sua falta. E, já fiquei tão especialista nisso que passei a vigiar toda
não falta que eu já não quero sentir.

Texto bem enxuto e objetivo guria! Escrever sobre o efeito das pessoas sobre nossas vidas é sempre motivador, pois graças a Deus, todos são adoráveis filhos da puta: Marcantes, Impetuosos, Fúteis, maravilhosos, Cafajestes e suas vigarices... cada qual com sua participação em nossa trilha vital. Afinal, se todos fossem gente boa e de fino trato, e todos nós possuíssemos uma cota x de sofrimento pra pagar... o que seria a vida senão um filme mudo ao som de uma pianola?
ResponderExcluirMas, tem horas que a única coisa que a gente quer na vida é viver em um filme mudo ao som de uma pianola. Até porque nessas horas nossa motivação não é o som, nem seus arranjos, mas quem possivelmente estará ao nosso lado.
ResponderExcluirTexto lindo!!!
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